No final de 2025, participei de um workshop na França com Daniel Odier, profundo conhecedor do Tantra da Caxemira e do Zen. O retiro focou em duas práticas principais da linhagem tântrica Spanda, originária da região da Caxemira: o Tandava e a Yoga do Toque. Essa tradição se diferencia por valorizar o aspecto feminino e a liberdade do corpo, distanciando-se da rigidez patriarcal que muitas vezes domina nossa cultura.
A base dessa filosofia está na união de Shiva (a consciência estável) e Shakti (a energia em movimento). No Tandava, essa união deixa de ser teoria e passa a ser uma experiência física de totalidade.
A Dança da Medusa e da Serpente
Diferente das meditações que buscam a transcendência através da imobilidade rígida, o Tandava nos convida a encontrar a liberdade através do relaxamento absoluto. Não há “certo” ou “errado”, não há metas ou performance. Existe apenas a escuta.
A prática nasce no centro do nosso ser. Sentado em posição confortável, imagine o diafragma movendo-se com a delicadeza de uma medusa nas águas mornas do oceano: a cada inspiração, o abdômen se expande; a cada exalação, ele se recolhe. Ao relaxar a língua, os ombros e abrir as axilas, o corpo deixa de ser uma estrutura sólida e torna-se fluido. A coluna, então, desperta em movimentos ondulantes como os de uma serpente, uma verdadeira homenagem à energia feminina que flui sem amarras.
Uma forma de tomar consciência da respiração do Tandava é descrita por Odier da seguinte forma:
Cada manhã, ao despertar, ainda deitado, coloco minha atenção na respiração abdominal e na bacia. Em um perfeito relaxamento, as mãos sobre os seios, os dedos sobre o esterno, as pernas abertas, sinto o relaxamento dos músculos abdominais por meio de uma inspiração suave e pacífica, durante a qual inflo o ventre, soltando o sacro para trás e arqueando os rins para acompanhar a inspiração.
Após uma leve pausa, expiro contraindo os músculos do ventre e empurrando o sacro para frente, como se estivesse fazendo amor com uma deusa ou com um deus.
Aos poucos, tomo consciência dos efeitos desta respiração sobre o diafragma, que ondula como uma medusa nas águas mornas do oceano. (tradução nossa) (ODIER, 1999, p. 46)
Essa dança evolui naturalmente. Os braços se tornam extensões do coração e, na sequência, o corpo se levanta. Não é uma dança coreografada, mas uma comunhão espontânea com o cosmos. É como se, ao soltarmos as tensões, permitíssemos que o próprio universo dançasse através de nós. Ao final, os praticantes são convidados a sentar-se e a simplesmente escutar o corpo, sentindo os efeitos da prática.
O Toque que Acolhe
Essa fluidez prepara o terreno para a Yoga do Toque. Aqui, a massagem deixa de ser uma técnica para se tornar um ato de entrega total. Sem qualquer conotação sexual, o praticante que conduz torna-se como uma mãe que acolhe um bebê, oferecendo um espaço de segurança e cuidado profundo.
Para o homem, essa experiência é especialmente transformadora, permitindo-lhe sentir no próprio corpo a força avassaladora da ternura. Quem recebe, simplesmente se dissolve no toque, abandonando as resistências e entrando na mesma dança cósmica e sem esforço iniciada no Tandava.
Um Convite à Totalidade
Ao final, o que resta é o silêncio preenchido por uma pulsação vibrante. Minha experiência pessoal foi de um êxtase sutil — uma sensação de que as fronteiras entre o meu corpo e o espaço ao redor haviam se dissipado.
Essa jornada nos ensina que o caminho para o sagrado não exige a negação do corpo, mas o seu relaxamento absoluto. O Tandava e a Yoga do Toque são convites para despirmos a armadura da performance e redescobrirmos a melodia que já habita em nossas células. Que possamos nos mover com menos esforço e mais presença, sentindo na pele que pertencer ao universo não é um conceito teórico, mas uma experiência física, vibrante e profundamente amorosa.
Referência bibliográfica
ODIER, Daniel. Désirs, passions & spiritualité. Éditions JC Lattès: 1999.

